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JAN

Bala perdida, bala mascada, vida marcada

CotidianoPor Post importado do Nossa Via(13) Comentários

Essa semana um grupo de 3 adolescentes, 12, 13 e 16 anos, foi abordado na porta da minha casa por um senhor, vigia de outra casa nas imediações, que portava um revólver carregado e que apontou para os meninos, realizou um disparo que “mascou” (o tiro não foi desferido) e começou imediatamente ali uma perseguição pelo homem aos meninos, todos em disparada. Uma cena impensável por mim, num bairro de classe média alta de uma cidade de médio porte do interior de Minas Gerais até… até que me foi narrada. A cena me pareceu surreal.

Saída do nada uma mulher, mãe do garoto mais velho, logo se pôs a correr atrás do perseguidor do grupo, com cara de desespero e disposta sabe-se lá a que para resgatar seu filho daquele cenário são e salvo.

Essa cena do nosso cotidiano nunca mais sairá do meu imaginário. Onde fomos parar, afinal?

Para encurtar a história, a mãe, perseguidora do perseguidor dos perseguidos, não o alcançou mas o intimidou; deu queixa à polícia, que acabou prendendo em flagrante o tal vigia – senhor de 59 anos de idade e que prestava serviços a um casal de abastados idosos, moradores naquele mesmo bairro – que alegou ser importunado pelos adolescentes “que faziam bagunça na sua porta com freqüência”…

Um desses meninos era meu filho. A mulher que correu atrás minha ex-esposa.

cidade-dos-anjos.jpg

Eu me lembro de quando andava, criança, de carrinho de rolimãs pelas ruas da minha cidade, uma cidadezinha menor do que a que moro atualmente, e o quanto o barulho das rodinhas do carrinho pela calçada de ladrilhos irregulares irritava algumas vizinhas mais chatas. Elas saiam correndo atrás de mim e dos meus amiguinhos com vassouras ameaçadoras nas mãos, esbravejando que iriam contar pros nossos pais que “não respeitávamos mais os mais velhos que só queriam um pouco de paz e silêncio”.

Ou das vezes em que, jogando bola na rua mesmo, já que o trânsito era pequeno, deixávamos que o brinquedo caísse, redondo que era, no jardim de outros vizinhos que, igualmente impacientes, não nos devolviam a bola ou chegavam ao extremo de nos devolvê-la furada. Ah, aquilo era a morte!

Não. Aquilo não era a morte!

A morte foi o que perseguiu meu filho, revólver em punho, anos depois das minhas próprias peripécias juvenis. A morte é mais feia quando persegue alguém que amamos do que quando nos deparamos com ela frente a frente nós mesmos.

Costumo pedir a Deus nas minhas orações que proteja de mim e dos meus desejos e sentimentos ruins aqueles que despertam em mim esses desejos e sentimentos. Constato hoje que também é mais difícil emanar bons fluidos a quem deseja o mal e age de maneira ostensivamente cruel com aqueles que amamos tão profundamente.

Costumo pedir a Deus nas minhas orações que faça de mim um dia sábio o suficiente para plantar em maior escala aquilo que promova conseqüências positivas para mim e, sobretudo, para o meu próximo. Constato hoje o quanto é pouco pedir, o quanto é urgente o agir.

Por outro lado, no país das balas perdidas, meu filho foi agraciado com uma bala mascada. Isso aumenta significativamente minha dívida com a vida e com a humanidade.

Vida longa ao videogame! Vida longa à internet! Vida longa ao DVD e à pipoca! Vida longa a tudo o que mantenha nossos filhos sob as nossas asas protetoras! Vida longa ao meu filho e aos seus amigos! E uma vida mais leve para aquele que tentou tirá-la desse trio, porque a sua deve estar pesada demais para valorizar tão pouco a do próximo. Que Deus lhe envie um dia o consolo de algum amor parecido com o que me une ao meu Rafinha.

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  • Wagner, fiquei impressionada com a história, com as diferenças que separam nossa realidade da realidade de nossos filhos.
    O que posso dizer? Junto-me à sua família no agradecimento a Deus pela proteção ao Rafa. Com certeza ele é muito querido por Ele.

    Sam, quanto mais eu rezo mais assombração me aparece! rs
    Obrigado pelo carinho. Abraço! W

    janeiro 16, 2008 às 20:09 Responder
  • Recebi seu texto como dica da Sam e fiquei impressionada com a história. Preocupo-me muito com a violência oferecida nos jogos das nossas crianças, porém quando essa mesma violência chega perto delas é assustador demais. Imagino o que você deva ter sentido. Que Deus continue abençoando e protegendo sua família!
    Abraços

    Pois é, Evellyn, minha referência aqui aos videogames, na verdade, foi mais uma força de expressão, porque, no fundo, no fundo, eu me preocupo demais com a dita violência oferecida nos jogos das nossas crianças mencionada por você. O negócio é não delegar a nossa responsabilidade paterna (e materna, claro) pela vigilância constante aos nossos pimpolhos, seja no ambiente online ou offline, certo? Grande abraço e obrigado. W

    janeiro 16, 2008 às 21:53 Responder
  • E eu aqui, tratando a obesidade dessas crianças que, por causa dessa violência que só faz crescer, obriga os pais a manterem os filhos cada vez mais embaixo de suas asas…

    Agora imagina, Rafael, você que é endo: o meu Rafa ainda é diabético tipo 1… haja insulina pra baixar as glicemias nas alturas provocadas pelo stress e pela falta de atividade física! O que salva é que o moleque é super disciplinado, magrelo, alto astral, de bem com a vida! W

    janeiro 16, 2008 às 22:41 Responder
  • Wagner!

    ÿtimo! Também ando pensando a violência.
    http://www.clubeletras.net/blog/topetem/nao-elogiamos-assim-se-mata-melhor/

    A ação de pensar, de sentir, de refletir, de usarmos nossa voz e nosso trabalho é o que pode mesmo competir, com alguma chance de sucesso, com a violência, Sérgio. O Tonobohn publicou hoje aqui no Nossa Via um texto que ajuda a entender um pouco mais do que estamos falando e vai criando uma amplitude maior da origem dos nossos problemas: A idéia do sucesso na sociedade contemporânea. Grande abraço! Gostei do seu post recomendado. Deixei lá também o meu comentário. W

    janeiro 17, 2008 às 03:26 Responder
  • A violência bate na porta de todo mundo… No comércio do meu pai, já fomos assaltados 3 vezes, as 3 por homens fortes, que poderiam trabalhar num serviço digno, mas que estavam assaltando pobres senhores num comércio quase falido…

    A pergunta que não quer calar é: o que podemos (e devemos) fazer de forma pró-ativa pela reversão desse estado das coisas? Beijão! W

    janeiro 17, 2008 às 12:11 Responder
  • Wagner, realmente nos faz pensar que país estamos? Qual o valor da vida? Como será o amanhã? Graças a Deus que ambos (sua ex-esposa e filhos) estão vivos e bem, assim como os amiguinhos. Triste, muito triste tudo isso… :(

    Vc não tem noção do quanto me sinto triste, Veri. Mas sei muito bem que esse é o tipo de coisa que, quando acontece, precisa nos servir de motivação pra uma reação construtiva. Beijo! W

    janeiro 17, 2008 às 13:22 Responder
  • Nossa, fiquei impressionada com o que aconteceu! Que mundo é esse?? Que valor tem a vida?? ÿ ridículo que à cada dia que passe nós estejamos nos prendendo, nos escondendo da morte que bate à nossa porta.

    Graças a Deus que todos estão bem…

    Bate LITERALMENTE à nossa porta, né? W

    janeiro 17, 2008 às 16:50 Responder
  • Tudo é reflexivo. A violência está vinculada ao ser humano e a luta da consciência é exatamente se proteger desse espinho.
    Acredito na idéia da palavra enquanto poder e agente transformador,,, Ter sal e imparcialidade pra descrever cena semelhante a essa faz de ti agente transformador.
    Acredito nisso! Vida longa à informação!

    Abraços e sociais invenções!

    Vida longa à informação! Mas isso é apenas o começo. Há que se fazer mais…W

    janeiro 17, 2008 às 21:48 Responder
  • Nossa Wagner… que coisa chata!!

    Sinceramente, esse tipo de coisa me faz ter decepções cada dia maiores deste mundo em que vivemos! Felizmente, outras muitas coisas e pessoas me fazem sentir o prazer de viver aqui!!

    Agora.. cá entre nós.. carrinho de rolimã faz um barulho muito chato! srrsrs Mas nunca briguei nem saí correndo atrás de criança alguma por causa disso! Feliz são eles que se divertem a beça com aquele barulho todo!! :)

    Bjus da Ká!

    Karyne, você, por acaso, não é uma das minhas vizinhas chatas que me davam “pegas” de vassoura em punho antigamente, é???Aiaiai, me acharam! Huahuahuahua Beijão, Ká! E carrinho de rolimã é tudo de bom, viu? Meu pai fazia um monte pra mim e eu já fiz outro tanto pros meus pirralhos. ;-) W

    janeiro 18, 2008 às 08:34 Responder
  • myla

    Estamos todos na sarjeta, mas alguns estão olhando as estrelas. – Oscar Wilde. — keep looking at the stars…

    Myla, se você não tivesse assinado esse comentário, ainda assim eu facilmente saberia que só poderia ser seu. Obrigado! Um beijo enorme pra vc! W

    janeiro 21, 2008 às 18:45 Responder