1ªSérie “Vida Inteligente na Blogosfera”
Artigo III, por Conrado Navarro*
“Fiquei muito honrado em receber o convite do Wagner para escrever e colaborar com o projeto Boombust. Confesso que o tema foi desafiador e espero que o resultado seja convincente e proveitoso aos leitores. Obrigado Wagner. Obrigado leitores, colaboradores e amigos do Dinheirama.”
“Empresas são como um organismo vivo”. Essa tem sido a frase do momento, proferida em palestras de norte a sul do país, que visam preparar melhores gestores para lidar com os modernos problemas corporativos: lidar com pessoas, seus altos e baixos e seus potenciais resultados são alguns deles.
Se a empresa é composta por uma rede de colaboradores, é considerada um organismo vivo e tem seus altos e baixos, então uma pessoa também é uma empresa. Loucura? Será que planejar sua vida, especialmente no aspecto financeiro, é diferente de planejar o crescimento e estrutura de uma empresa? Será que podemos criar um paralelo e perceber que esse estudo é plausível e interessante? Enfim, este foi o desafio que o Wagner me propôs.
O objetivo do artigo é tratar da sua saúde financeira e compará-la à administração de uma empresa.
Como uma empresa consegue dinheiro? Será que ela também paga juros? Pretendo esclarecer estas dúvidas e alertá-lo para o bom hábito de se ver como uma empresa. Mas antes disso, precisamos entender como deve ser representada a estrutura de capital de uma empresa:
Figura 1 – Estrutura resumida de uma empresa
O fluxo da imagem, e da prática, é bem simples. A empresa capta dinheiro através do Passivo com a finalidade de investir no Ativo. Como você faz para comprar um carro, um apartamento ou um produto qualquer? Você não precisa conseguir o dinheiro primeiro para então comprar o que deseja ou necessita? Na empresa é a mesma coisa. Ou você tem o dinheiro, ou não tem. E ai?
Pegar algo “emprestado” e devolver no curto prazo. Você faz isso?
O passivo circulante representa os insumos e matéria-prima que a empresa obteve de fornecedores e que precisa pagar dentro de um período curto de tempo. Ou seja, é um crédito cedido por eles, de poucos dias ou meses, que a empresa aproveita para usar o material adquirido para criar produtos ou estoque (ativo circulante) e posteriormente vendê-los, gerando caixa. Caixa este que irá servir para quitar o crédito e permitir que o fornecedor continue operando dessa forma. De uma forma simples, é manter o nome limpo para poder usar pequenos créditos na forma de produtos. Alguma semelhança com sua vida?
Tudo muito bem, tudo muito bom, mas existe dinheiro de graça? Note que se o fornecedor cedeu o crédito em forma de peças ou insumos, sem receber na hora do empréstimo, ele irá querer cobrar algo a mais por isso, um juro. Como exemplo, digamos que ele seja de 10%, para que possa lhe oferecer esta vantagem. Este juro é chamado de custo de capital. Quando você pega algo sem pagar na hora, não é justo que lhe cobrem algo a mais por isso?
Financiar seus sonhos. Você faz isso?
O exigível a longo prazo representa os financiamentos que a empresa contrata e que têm seu prazo maior que 12 meses. Ela recebe na hora o dinheiro que precisa para investir em seus ativos e então assume o compromisso de devolver, com algum juro, o montante emprestado, pagando em prestações que julga interessantes. De novo, há juro envolvido, o tal custo de capital. Para financiamentos de longo prazo, este valor é mais alto. Digamos que ele seja de 15%. Neste caso, dizemos que a empresa trabalha endividada ou alavancada. Mas será que isso pode ser interessante e inteligente? Claro que sim. Vamos entender porque em mais alguns parágrafos.
Você deve ter algum bem financiado em mais de 12 parcelas. Se não tem, parabéns. Ora, se a instituição permitiu que você recebesse o produto ou dinheiro na hora, aceitando seu compromisso em honrá-lo durante 2 ou 3 anos, não é justo que ela cobre os 15% ou mais por isso? Você está agora vivendo alvancado. De novo, será que isso é inteligente?
Guardar uma grana pra você se divertir, sentir-se recompensado. Você faz isso?
Até agora vimos as áreas que representam o capital de terceiros na empresa. O patrimônio líquido de uma empresa representa o capital próprio, lucros e montante separado para a remuneração dos acionistas. Aqui, também existe o custo de capital e ele é normalmente o mais alto nesta estrutura. Empresários e acionistas normalmente exigem um retorno alto de seus negócios. Usemos 20% neste exemplo. Você não quer que sobre um dinheiro para investir naquilo que lhe parece interessante, fora dos seus objetivos principais e necessários? Os donos das empresas também.
A esta altura você deve ter concluído que uma empresa precisa de dinheiro de outras instituições, precisa remunerar seus acionistas e ainda assim ser sustentável e capaz de crescer. Parabéns pela conclusão. Mas como isso é possível? Ora, vimos que cada componente do passivo tem seu custo de capital. Usando uma média simples neste exemplo, podemos ver que o custo de capital ou taxa média de atratividade é de 15%. Este é apenas um exemplo. O cálculo real desta taxa dá-se através da média ponderada.
Entendeu né? E agora?
No nosso exemplo, para que a empresa possa ter dinheiro, insumos, remunerar seus acionistas, ela precisa pagar 15% de custo de capital. Como fazê-la crescer? Ora, ela deve focar sua estratégia, esforços e recursos em projetos/produtos que garantam no mínimo 15% de retorno, não é óbvio? 15% é a taxa mínima de atratividade para os projetos da empresa. Criar estratégias que rendam menos que isso é um tiro no pé.
E você, onde entra nessa? Qual o seu custo de capital, taxa mínima de atratividade para que possa investir em mais alguma coisa? Você tem garantido retornos maiores que os juros que normalmente paga? Se não, está fazendo um mal negócio com sua vida financeira e como uma empresa, corre o risco de quebrar.
O raciocínio é simples, concorda? Se você fosse o diretor da empresa usada em nosso exemplo, jamais permitiria que um projeto com retorno de 12% fosse aprovado, certo? Por que vai se permitir comprar algo que comprometa sua rentabilidade-alvo pessoal? As prestações cabem no seu orçamento e ainda assim você se encontra sem dinheiro, ano após ano? Por que será?
É inevitável o uso de um exemplo real. Sempre ouço a história do tal carro que é necessário para trabalhar e que, portanto, seu financiamento é justificável. Primeiro faça as contas e use o ponto de vista demonstrado neste artigo. Se você precisa do carro pra trabalhar e já se decidiu, isso significa que seu retorno será maior que seu custo de capital (juros do financiamento + depreciação). É isso mesmo que acontece na prática? Pois é, não confunda necessidade com comodidade.
Será que cumpri o prometido com o artigo? Fica a mensagem final. Coloque na ponta do lápis, na calculadora e veja quanto você precisa pagar a mais para ter qualquer coisa de forma imediata. Se você tiver condições de trabalhar este benefício imediato e suas finanças de forma a conseguir atingir e ultrapassar seu custo de capital, você tem nas mãos um bom negócio. Fora isso, repense! Educação financeira não é só orçamento, controle de gastos e investimentos. É inteligência para, acima de tudo, interligar todos estes conceitos!
(*) Conrado Navarro é consultor de finanças pessoais e de investimentos. Com formação técnica e MBA Executivo pela UNIFEI, ministra palestras, mini-cursos e workshops para empresas, comunidades e estudantes em toda região Sudeste. Sócio-fundador do blog Dinheirama, mantém artigos, opiniões e muito de seu trabalho disponíveis na internet. Empreendedor serial, atua também na área de gestão de empresas de tecnologia e serviço, além de cursos virtuais e consultoria online.


[...] de já ter escrito para o BoomBust, de já ter aberto espaço no Dinheirama para que eu contribuisse com seu trabalho, convidei o [...]
[...] passaram por aqui, nos idos tempos do “velho” BoomBust (lá no Blogger), o Conrado Navarro (leia-se Dinheirama), a Samantha Shiraishi (que tem seu blog pessoal e participa do Desabafo de [...]

Conrado,
maio 26, 2007 às 09:25Muito bom o seu trabalho, já que atualmente sobrevivermos com os salários atuais exigem uma quase formação em economia para admistrar tão pouco dinheiro.
O difícil é quando já seu perdeu o controle, e ainda pior, sair do vermelho…
Sua comparação é válida e verdadeira.
Parabéns a vc e ao Wagner pela iniciativa.
abs
Obrigado, Paulo.
maio 26, 2007 às 10:26Ta aí a dica para mais um ótimo artigo Conrado: como sair do vermelho depois que já se perdeu o controle. Mesmo que você já tenha escrito sobre isso no passado, vale renovar para seus novos leitores – o que me diz?
Abraços!